terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A culpa é das estrelas e pensamento de Schopenhauer e Nietzsche


 

Adaptando o livro homônimo de John Green, “A culpa é das estrelas” se revela o filme mais emocionante dos últimos tempos. De uma produção de Temple Hill e outros, a película mostra uma moça, Hazel, com câncer terminal no pulmão, de modo que ela anda com oxigênio junto a ela. Não sem perder o charme. Ademais, ela conhece Gus, que sofreu uma afecção de modo que perdeu parte de uma perna, e depois sofreria de demais doenças fatais, que também demonstra grande compreensão existencial, apesar de ambos adolescentes. Um filme para chorar, e mais, um filme para diminuir os próprios e míseros sofrimentos, incomparáveis aos personagens que rondam essa produção. Como teria dito Nietzsche, um famoso filósofo sofredor, em uma carta a sua irmã: “Para que uma ética seja ao menos possível, deve-se saber qual sentido cada época confere ao sofrimento”1.
 
Resultado de imagem para a culpa é das estrelas

Em A culpa é das estrelas se vê uma crítica ao compadecimento das pessoas do ponto de vista crítico de quem sofre com a doença. O câncer é assim colocado como uma condição humana e existencial, e as pessoas desejam viver. Viver cada dia como se fosse o último e especial. Seja para deixar o nome a posteridade, como pretendia Gus, seja para amar e conhecer seu escritor favorito, como queria Hazel. A fita começa com uma sinopse e deixa quem assiste o filme situado, mesmo que não tenha lido o livro antes, o que foi meus caso. Os personagens são engraçados, como o pouco talento de Gus no volante, ou mesmo o seu amigo que depois fica cego, o mais adolescente de todos. Já Hazel pensa que sempre seu amigo será um amigo. Com o tempo vem a declaração dele de estar apaixonado, e assim ela liberta seus sentimentos antes aprisionados na doença, limitados pela ideia de ser uma granada.
 
 
Resultado de imagem para a culpa é das estrelas

O sonho de Hazel é uma viagem a fim de conhecer seu escritor favorito, para assim saber do final da história que tanto a perturba. Fora a crise que sofre e o cancelamento da viagem, que depois é remarcada, ela tem essa perturbação. E o escritor é mais morto que ela, um “bêbado fracassado”, nas palavras dela. Mas me lembra Schopenhauer, pois há um pessimismo no discurso dos personagens, um direito a esse pessimismo. Apesar de o amor conseguir chegar em uma relativa metafísica, apesar de haver uma densidade muito grande nesses dois jovens que se amam. Parece que os personagens sabem demais, são muito letrados, muito culturais. O amigo de Gus que fica depois cego, é o mais normal da turma. Ele nota os seios das moças e joga videogame. Já o casal que se ama, a princípio como amigos, tem o lado bom de superar a doença, mas por outro lado já envelheceram. Há um aspecto saturnino e melancólico no filme e no livro, uma fatalidade de predestinação. A predestinação da ciência, não da existência ou do ser. Predestinação para a morte. 
 
 
Resultado de imagem para a culpa é das estrelas 

O filme de início me lembrou outras duas obras do cinema que tem enredo parecido: “Uma prova de amor”, onde uma adolescente com câncer sofre seus impasses existenciais e também conhece um amor, e “Love History”, onde o amor surge entre pessoas diferentes, restando a morte da amada no final. Esses filmes completam o A culpa é das estrelas, e ainda existem e existirão outros. De positivo é se ver que quem sofre com a doença não é a doença, e que tem o direito de curtir, viver, zoar e fazer o que quiser. Apenas ficou um pouco estranha a forma que se trata a espiritualidade e religião na obra, o que poderia ser mais trabalhado. Gus declara acreditar em algo além, mas Hazel parece ser ateia. Quando ela fala nos números infinitos entre 0 e 1, talvez nesse ponto possa haver algo místico em seu ser, superando a morte que a ronda. Mas isso me fez antes pensar na hipótese de Rhiemann, e no significado do universo. Universo que ganha com o amor, que ressignifica todas as coisas, que faz a alquimia capaz de imortalizar e curar todos os males. O filme merece homenagem pois adapta bem o livro, e revela a melhor produção dos últimos tempos, como uma forma inteligente e sensível de drama. Uma experiência de Pavlov para testar as glândulas lacrimais, uma obra de arte que traz a aura do cinema, quando já não parecia ter mais aura. Por isso a plateia de uma sala levantou e bateu palmas. Sem propaganda e sem política, a plateia bateu palmas para um filme que nem conhecia, para um filme que emocionou, que mostrou o poder transcendente da arte. “A culpa é das estrelas” merece essa palmas verdadeiras, merece ser vista e para que o sofrimento seja transformador, assim como Nietzsche desejava aos amigos. E assim um amor fati, um amor ao destino, e amar nesse destino. Hazel cumpriu seu amor fati.

1ASTOR, Dorian. Nietzsche. p. 89.