quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Filme “Bem me quer mal me quer” e a presunção de inocência


Filme “Bem me quer mal me quer” e a presunção de inocência








Em “Bem me quer mal me quer” - À la Folie... Pas du Tout , francês, estrelado pela linda Audrey Tautou, da direção de Laetitia Colombani, a qual já fez produções emblemáticas, e ainda o recente filme do Código da Vinci, me parecia a primeira vista mais uma comédia romântica, do estilo daquelas que vemos outras em grande número, mas quando vi era um grande questionamento de moral e de ideias pré-determinadas. Nos mostra até onde o nosso próprio mundo pode ser uma lente ao mundo fenomênico. A nossa idiossincrasia assim influi muito. O filme de início parecia um discurso feminista, mas aos poucos a coisa foi se invertendo. Derruba padrões.
 
 
 

Quando vemos novelas, percebemos aquela velha história, de homens infiéis, malandros e curtindo a vida com amantes. Ou vemos uma mulher histérica condenando tudo e projetando suas crises de relacionamento em modo a culpar os outros, ou mesmo em julgar o mundo de perdido ou simplesmente o colocando de lado, frente aos valores, ditos líquidos por sociólogo Zigmunt Bauman. Fato é que nem sempre os padrões cabem e são tão óbvios. Vemos em muitas condenações e julgamentos a falta de devida prova, e condenações antes de se ter a mínima prova. Aquele que pratica um ato criminoso só pode ser condenado com a prova, e mesmo com a certeza de sua autoria. Também o louco ou alguém com transtorno é inocente, ou o que a lei chama de inimputável.
 
 

O filme se divide em duas partes, que quase se repetem, não fosse a inversão de ponto de vista. Mudar de sujeito para objeto, ou de sujeito para sujeito, altera muito a cognoscibilidade. Vemos que condenamos as pessoas com base em pré-conceitos indeterminados, e usamos de uma causalidade questionável. Essa causalidade já foi criticada em trabalho empirista de filósofo David Hume, onde na verdade vemos fatos e coisas sem qualquer ligação. Assim o homem pode ser fiel sim, cuidar da esposa e respeitar sua vida e situação. O que o corrompe é muitas vezes a sociedade, como mostrou Rousseau. E a sua ética é um meio, e não um fim, como demonstrou Kant.
 
 

Esse romance (imaginário) de uma artista plástica com um médico, em muito dá no início do filme que condenar. Achamos que ele trai a esposa e que é um canalha. Depois na outra versão notamos que a prova e a inocência está mais a favor de outra situação, e que o filme supera em muito aquelas comédias românticas de costume. O filme explora a erotomania dela e assim, um transtorno psicológico. Nesse a pessoa se apaixona e por qualquer sinal da pessoa amada, se vê também amada. Mas na verdade nada existe, e apenas há na cabeça da pessoa esse evento. O filme é assim um dos que tenho na prateleira, e ainda mais com a linda Audrey. Gosto dela porque é engraçada e não passa aquela coisa de outras atrizes, como de filmes que parecem duvidosos, de outras produtoras e países. Por fim, o condenado previamente se torna depois inocente, pelo final que se percebe no filme. A inocência tem de ser mesmo presumida, e não a culpa. Fica a lição de penalistas e juristas. A causalidade precisa ser revista em nós.