quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

TUBARÃO 4 e a vingança da mulher


TUBARÃO 4 e a vingança da mulher






Na quarta parte da franquia, a qual se originou no brilhante Spielbert, mas esse dirigido por Joseph Sargfent, vê-se um dia de Natal como qualquer outro, com canto de coral, estrelas, enfeites característicos. Na praia há toda aquela aura de conforto e relaxamento. Mas por trás desse aconchego aparente, eis que vem uma força incontrolável e misteriosa: o tubarão. Em sua sede de vingança, pega primeiro o filho de seu inimigo, o qual apenas deixou mais um filho e uma viúva (Lorraine Garry). Para o bom elenco, se chamou o engraçado Michael Caine, que aqui trocou sua Fábrica de Chocolate por peixe frito. O filme não mantém a qualidade do primeiro e segundo (o terceiro não parece ser parte alguma...), mas tem alguns momentos de forte emoção, e um tom psicológico forte, apelando para pesadelos, premonições e até telepatia. Há um retorno para a ideia original: uma força sem controle.
 
 

O tubarão parece mais um demônio, uma vez que cegue a viúva do chefe de polícia, de modo que mesmo ela passando o luto nas Bahamas, acaba por a procurar. Ela tem a premonição da perseguição do demônio vestido de tubarão, mas ninguém lhe dá créditos. Tem pesadelos, vive hitericamente. E como em filmes desse gênero há gritos histéricos. E ainda para compensar a esposa do filho é ninfomaníaca (lembra filme de Lars Von Trier...). Os momentos em que o tubarão sai da água são quase surreais, e assim o filme entra para ser um triller mesmo, não um documentário de tubarão. Filme agradável e com momentos de alegria que se alternam com os de terror, ou de ação. Difícil imaginar que estudantes teriam um submarino, mas em filmes vemos dessas coisas.
 
 

Muito interessantes são as cenas do mar. Há aquele horizonte que põe medo, que quase personifica o tubarão, sua força misteriosa e desejo de engolir. O mar também deseja engolir, ele tem vida, tem espírito. Esse tubarão, desde aquele primeiro sempre foi um espírito do mal, uma força que nada tem a ver com o animal que conhecemos. Mas tubarões são pré-históricos, eles manifestam aquela nossa energia interna de predadores. E quer maiores predadores que os seres humanos? O filme parece mostrar isso no desejo de vida, e ao mesmo tempo nas mortes que vão surgindo, novamente os aspectos que Freud chamava de Eros e Anteros, desejo de vida e de morte.
 
 

O tubarão come barcos, tenta morder um avião, devora a coragem. Quantos de nós já não tivemos um medo incontrolável, verdadeira fobia inexplicável. No filme a Ellen tem esse medo e esse ódio, uma vez ter perdido o esposo e agora o filho para o tubarão. Seu filho Mike não acredita na crença da mãe. Muitas vezes as pessoas veem apenas superstição em temas como a maldição. Mas ela existe. Aqui a maldição vai fazer o tubarão buscar Ellen e seu filho Mike, a fim de os devorar na vingança. Mas quem se vinga? A viúva em luto ou o tubarão? Fato é que quando não é o mar, é a terra que nos devora, para o problema filosófico indissolúvel: a morte. E ela descobre uma nova vida, quando começa a namorar Hogie, que lhe leva a passeios de avião (um anjo que leva ao céu?), e assim forma o filme uma simbologia interessante. Tubarão=anjo da morte, piloto=anjo que salva, mar=vida e morte.
 
 

E essa mulher enfrenta o tubarão, ou melhor, a besta de seu tempo, o machismo e dominação de sua sociedade. A mulher assim vence o preconceito, arrumando novo namorado, e supera a morte do filho. A mulher venceu todos os monstros: se libertou de tubarões-machos, seja na figura de pai opressor, seja na de marido manipulador. E para uma mãe perder o filho pode ser a morte. Ela passou por essa iniciação e vai enfrentar o tubarão. Leva o barco sozinha e adentra no mar amplo, o mar do inconsciente. Não há fera maior do que aquela que está dentro de nós. Essa nos põe medo, nos devora, leva a vida ou a morte. Esse tubarão é um dragão interno. Poderoso. E assim com ajuda de seu anjo aviador, e de seu filho que reencarna o marido, ela enfrenta o bicho-demônio. Derrotam a fera e com a inteligência do amigo do filho Mike (seu anjo da guarda?), eles explodem ou batem com barco de frente ao tubarão. Pois enfrentar é algo “de frente”. Mais um tubarão é vencido. E assim o filme é até agradável, tem bom som e parece com as chamadas de trechos do primeiro, levar algum sentido de se situar na história. Um bom filme, e talvez o menos conhecido da série. E há o destaque pela ótima atuação de Lorraine Garry.

sábado, 8 de novembro de 2014

Filme Noé, Odisséia e o Eterno Retorno


Filme Noé, Odisséia e o Eterno Retorno






Recheado de um elenco de primeira, contendo Russell Crowe, Jeniffer Connely, Antony Hopkins, Emma Watson e outros, o filme prometia, haja vista haver sempre a polêmica de lidar com o tema da crença, e mesmo de nossa cultura e religião. Talvez tenha sido mais a promessa e a curiosidade do que poderia surgir. Em muito o filme parecia semelhante as antigas produções religiosas, apesar de surpreender pela aparência dos gigantes, homens de pedra, que seriam anjos caídos, leva em muito algumas diferenças com o que disse a Bíblia, apesar de na maioria a informação parecer vinda de lá. Uma versão original do mito, e trazendo o pensamento do recomeço, ou o que para um pensador grego seria o Eterno Retorno, em um mundo novo que nasce da águas que engoliram o velho.
 
 
 

A mitologia tem seu paralelos com outras referentes a heróis e vitórias de eventos grandiosos, como no caso de Odisseu, lá em Odisséia, onde ele fica um período de 10 anos enfrentando os maiores perigos, e que retorna triunfante ao seu reinado, inclusive reconquistando a esposa. No caso de Noé, ele constrói a arca junto com os gigantes, e assim preserva a sua família afastada do perdido mundo, apesar de conservar lembrar a toda a hora do evento da serpente do Éden, e ser um tanto tirano, como demonstrou em certa misoginia, ao desprezar namoradas dos filhos, ou no caso de querer sacrificar neném, se nascesse menina, quase o fazendo com as netas gêmeas. No mais parece mostrar um patriarcado, o que lá em Odisséia também talvez ocorria, apesar de encontrarem lá mulheres poderosas em ilhas desertas, bem como uma rainha.
 
 

Na arca, apesar de sua construção pelos gigantes de pedra, houve a repetição de querer colocar todas as espécies de animais, inclusive as cobras, em seu interior. Talvez o momento infantil do filme. Do mais, o namoro do filho Sem, bem como a crise do filho Cam, rendem até certos momento de drama. O filme em certo momento parece um dramalhão mexicano, tamanha a choradeira das mulheres em conflito com o machão Noé. Restou o sábio Matusalém, que exercia milagres, e que apesar de morrer na grande enchente, foi o melhor personagem do filme, curando a esterilidade da esposa de Sem, bem como tranquilo com o fim do mundo. Também Noé tem poderes paranormais, e exerce milagres, e o vilão ficou por conta de Tubal Caim, que levava consigo uma relíquia, a pele da serpente do Éden, usada como filactério, faixa amarrada ao braço, no estilo judaico.
 
 

Vemos a virtude ou Areté de Noé, bem como a Hibris do povo de Sodoma/Gomorra, com seu caos, que não foram identificados. Também notamos o aspecto filosófico da reconstrução do destino ou realidade, em verdadeiro eterno retorno, lembrando Nietzsche, que falava que isso era que nem o renascimento sem fim de um demônio, repetindo todas as coisas. Há no filme belas cenas e bastante batalha, faltando temas como a mulher transformada em estátua de sal, mas somando informações, como o caso de Noé ter tirado água da rocha, milagre descrito no Alcorão. Parece que se usou os escritos apócrifos, aqueles encontrados em Nag Hamadhi, no Egito, em 1945, para somar mais fatos, como o caso dos gigantes, que são bem descritos no Livro de Enoque. A produção assim tem boa fotografia, abusando do contraste, em cenas no escuro, e de uma imagem não muito positiva da humanidade, não parecendo Noé mais justo do que aqueles que lá viviam, uma vez ter matado homens e parecendo praticar artes mágicas. Parece em muito um Odisseu, ou mesmo Hércules e outros heróis, fazendo de tudo para agradar o céu, e colocando em perigo e até sacrificando a família, se necessário, em proveito de seu fanatismo. Mesmo assim o filme é muito bom e mostrar um lado positivo dos gigantes foi curioso, o que pode surpreender os leitores mais aficcionados da Bíblia. Talvez teve bem menos repercussão que outros que lidaram com tema religioso, como O Código da Vinci, mas mesmo assim uma boa produção, com diálogos interessantes e não centrando muito na ação, e não contendo cenas de sexo ou violência, o que possibilitou menor censura.
 
 

terça-feira, 22 de julho de 2014

O cinema na opinião de um grande filósofo brasileiro contemporâneo


O cinema na opinião de um grande filósofo brasileiro contemporâneo






Sempre bom encontrar uma boa crítica de cinema. Vemos muitas pessoas comentando os trabalhos da sétima arte, mas poucos com um enfoque mais filosófico. Já comentamos aqui a opinião de Cziczec e agora temos a opinião de um filósofo brasileiro, Cléverson Israel Minikovsky, que já conta com 28 livros e que nos brinda com uma obra de vários volumes, a Summa Philosophica, que conta com 10000 teses, e, da qual tirei um capítulo em específico sobre o cinema. Vale a pena conferir, a obra se encontra em site Clube de Autores. Vejam o capítulo em questão:



CINEMA COMO RELATIVIZAÇÃO DAS TEOLOGIAS



Tese de n° 01.551: O filme do super-homem é uma grande teologia, o super-homem é oriundo de um outro planeta e sua missão é salvar a Terra, uma vez exposto à criptonita fica débil e frágil como qualquer outro ser humano e seu inimigo capital é o criminoso universal Lex Luthor.

 


Tese de n° 01.552: Em O Senhor dos Anéis o que se vê são três tribos, a dos anões, a dos elfos e a dos humanos e sempre se corre o risco de as trevas prosperarem porque a raça humana na pessoa de Ilsiodor perdeu a grande chance de destruir o anel no Morro da Perdição.



Tese de n° 01.553: Em O Conde Drácula, estória que migrou da literatura para o cinema, o Drácula é o nobre que adquire a imortalidade bebendo o precioso Sangue de Cristo e para manter seu defunto corpo vivo precisa sugar o sangue dos humanos para saciar o apetite tal qual morcego, os vitimados pelo vampiro tornam-se vampiros, os vampiros temem crucifixo, alho e água benta, mas só morrem com uma estaca cravada no coração.
 



Tese de n° 01.554: Em Armagedon o que se tem é a prospecção científica de que um meteoro colossal está prestes a atingir a terra e então uma missão realizada por uma equipe norte-americana que incluía desde cientistas altamente gabaritados até débeis mentais e então cava-se um poço quilométrico, deposita-se uma bomba ultra-poderosa no centro do astro e pulveriza-se o mesmo antes de atingir nosso planeta.



Tese de n° 01.555: Indiana Jones num filme quase consegue adquirir para si o Santo Graal, o que lhe daria a imortalidade e noutra ocasião evita que a Arca da Aliança caia nas mãos dos nazistas, o que traduz o mais sagrado dos objetos prestes a cair nas mãos dos mais profanos dos seres humanos.
 
 



Tese de n° 01.556: Em Sociedade Secreta que ilustra a realidade dos skulls se mostra que se é difícil ingressar numa sociedade secreta é impossível dela sair, as regras do mundo interno da sociedade secreta se sobrepõe às regras do mundo exterior, é um universo dentro de outro universo e convive paralelamente com o mundo dos leigos.



Tese de n° 01.557: James Bond é um super-agente inglês que trabalha em prol dos interesses dos Aliados, dirige desde uma motocicleta até um helicóptero ou avião, maneja todo tipo de arma, domina todas as tecnologias de ponta e as técnicas de espionagem, fala dezenas de idiomas, é faixa preta em todas as artes marciais, segue a etiqueta à risca, é elegante e é bem-sucedido sexualmente com todas as mulheres.
 
 



Tese de n° 01.558: Godzila é o produto de uma mutação genética em função do despejo de produtos químicos em regatos e ele se apresenta como uma anfíbio enorme, hermafrodita, com alta capacidade reprodutiva que ameaça a espécie humana como espécie predominante no planeta.



Tese de n° 01.559: O Parque dos Dinossauros é uma genial ficção científica na qual um mosquito fossilizado carrega no abdômen sangue de dinossauro, mas a freqüência do DNA não está completa e se faz uma reposição com um cromossomo de rã, ocorre que esta rã tem a singular peculiaridade de mudar de sexo quando há desequilíbrio na população entre fêmeas e machos e é assim que a vida retoma seu ímpeto e volta à existência.
 
 



Tese de n° 01.560: O cinema relativiza a teologia ao criar esquemas de compreensão do mundo e chaves explicativas que se apresentam como metanarrativas tão amplas como o projeto de salvação individual e da humanidade búdico, tântrico, cristão, etc.







Após partilhar essa genialidade, resta que tenhamos essa enciclopédia de filosofia divulgada e cada vez mais prestigiada. Também que tenhamos nos filósofos brasileiros e no cinema em geral um gosto mais acurado. Eu mesmo escrevi meu Filmes e Filosofia, que ainda merece maior prestígio, mas que dentre em pouco terá também seu destaque. Fato é que há muito mais nos filmes do que imaginamos, e mesmo naqueles que meu amigo citou acima, como Superman, Drácula, Senhor dos Anéis e outros, vemos sempre uma cultura que assola e devora. Vemos toda uma cosmovisão exsurgir da tela, seja ela grande ou pequena.

domingo, 15 de junho de 2014

Filme "Passageiros" e a filosofia de Allan Kardec


Filme "Passageiros" e a filosofia de Allan Kardec




Da direção de Rodrigo Garcia, Passageiros une a história de um conflito existencial, que nos leva a pensar no mito de Sisifo focado por Camus, até em um espiritualismo, que por fim faz pensar em Allan Kardec. Filósofos atuais pensam nesse autor como Cléverson Israel Minikovsky e também Fídias Teles. Fato é que o filme começa em um romance interessante, de um homem que jogou vida fora em trabalho e de uma mulher que é psicóloga, e que por surpresa ajuda sobreviventes de desastres aéreos.

O filme tem bom elenco e uma fotografia interessante, sem os exageros de filme O Sexto Sentido, que tem a mesma tônica, e nem qualquer pista que revele seu segredo. Assiste-se o filme todo e apenas no final se descobre a natureza dos protagonistas, todos espíritos após a morte, e que interagem de modo mundano e normal. Quando vemos as questões de Kardec na obra O livro dos Espíritos, percebemos que o mundo espiritual e após a morte é cheio de ocupações, bem diferente de um mero descanso ou dissolução. Tese importante do livro é que existe vida em mais mundos ou locais e na evolução do espírito, através das vidas ou encarnações.
 
 

Mas o dilema principal do filme até se saber de não estarem vivos é o ‘carpe diem’ do protagonista, e da limitação da ciência da psicóloga em ajudar as pessoas. E o antagonista é o piloto do avião, que antes se apresenta como um manda-chuva da empresa aérea, tentando livrar esta da indenização, uma vez que se desejava provar que avião teria explodido e caído, com uma falha mecânica. Por fim ele quer sim ter a responsabilidade, e não proteger a companhia, sendo assim compreendido. A ética espiritual parece ser uma questão também central, além do romance, que traz o questionamento do comportamento da ter5apeuta, a qual tem caso com esse paciente, o acidentado passageiro.

Mas pensando na teoria espírita, a morte pode vir e não se saber estar morto. Assim muitos ficam perdidos e em caso de acidente grave isso se amplifica. A evolução ou apego a matéria são fatores-chave. Lembro aqui duas questões que achei de início, como a 305: “305. A lembrança da existência corporal se apresenta ao Espírito, completa e inopinadamente, após a morte?“Não; vem-lhe pouco a pouco, qual imagem que surge gradualmente de uma névoa, à medida que nela fixa ele a sua atenção.” E a questão 163 e 164: “163. A alma tem consciência de si mesma imediatamente depois de deixar o corpo? “Imediatamente não é bem o termo. A alma passa algum tempo em estado de perturbação.” 164. A perturbação que se segue à separação da alma e do corpo é do mesmo grau e da mesma duração para todos os Espíritos? “Não; depende da elevação de cada um. Aquele que já está purificado, se reconhece quase imediatamente, pois que se libertou da matéria antes que cessasse a vida do corpo, enquanto que o homem carnal, aquele cuja consciência ainda não está pura, guarda por muito mais tempo a impressão da matéria.”. Nos personagens do filme se percebe esse apego ao mundo e uma quase ausência de espiritualidade. Para tanto, as pessoas demoram a saber que desencarnaram.
 
 


Mas o filme tem boa ação e um certo aspecto intelectual, sendo inteligente. A atriz é simpática e ambos são sozinhos, o que atrai o espectador mais carente. Falar-se em teorias de psicologia é algo que se encaixa bem, e aos poucos parecia mais uma paranormalidade dos sobreviventes que um mero desencarne. A transição se envolveu em mistério e outros fatores poderiam ser abordados, como avisos e visão de espíritos antes da morte, como os relatados por Ernesto Bozzano. Mas é um filme diferente, que não abusa de efeitos e que leva a essa reflexão existencial e moral, e até onde nossa sociedade pós-moderna abusa de trabalho e aproveita pouco a vida. O personagem principal é uma crítica a esse aspecto pouco divertido de nossa vida. Também faz refletir sobre a solidão, e sobre a necessidade de uma nova vida que leve em conta a beleza da vida, e seu hedonismo. Lembra-nos um pouco de Epicuro e da necessidade do relacionamento, seja a amizade ou outro, e de uma autoanálise. Fato é que o espiritismo vem como recheio final para colocar mais ainda o destaque dessa bela produção, ainda que não tão valorada. Um filme inteligente e envolvente, romântico e diferente.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Filme “Titanic – somente Deus por testemunha” e doutrina de Epicuro


Filme “Titanic – somente Deus por testemunha” e doutrina de Epicuro





 




Vi o filme antigo do Titanic e fiquei impressionado com a qualidade e o foco histórico da obra, que diferente do de Cameron, não se focava em história de amor ou em temas diversos do personagem principal: o navio. O filme tem ritmo de quase documentário e mostra bem fatos relatados por sobreviventes, que apesar do dinheiro, tiveram a lição da catástrofe para repensar seu entendimento existencial. Vê-se em umas pessoas, a proximidade do naufrágio e sua imperturbabilidade (ataraxia), o que nos lembra a doutrina de Epicuro, filósofo da ilha de Samos. Essa ausência de dor nos leva a pensar de como algumas pessoas conseguem suportar certos acidentes, ou situações extremas. Também nos mostra que a riqueza não parece o maior prazer, e que esse prazer tem de ser moderado.

O navio Titanic carrega em sua história uma complexidade desconfortante. Primeiro que uma pessoa disse que nem Deus afundaria o navio, em uma opinião mais que controvertida. Depois o nome Titanic soma 13, número de azar e que já esteve ligado a diversas catástrofes e pessoas, um deles Napoleão. Mas voltando ao filme, esse explora temas que foram repetidos no filme atual, e que naquele tempo desse, década de 50, era mais feito com talento e maquetes. O navio afunda por inteiro, mas é desafiante a cena final, mesmo aquele momento posterior ao naufrágio. Vemos também que por telégrafo já estava avisado sobre o gelo, e que aquela rota era mais que perigosa no momento. Também percebemos que a preguiça humana de um capitão de navio que estava próximo fez com que a tragédia fosse inevitável, haja vista dormir e não dar bola a fogos sinalizadores do navio inglês.




Mostra assim o filme a efemeridade da condição humana, e os prazeres vãos em prol da desgraça alheia. Assim a divisão de classe não tornou o navio um “castigo” contra ricos somente, mas uma lição de sobrevivência, uma vez que dos 1500 passageiros, 700 sobreviveram, e que levaram consigo essa suma experiência de vida. Disso observamos essa obra de arte de 1958 ficou assim gravada, lembrando o desespero de uns, e a imperturbabilidade de outros. Isso que impressiona. Como uma banda continua tocando enquanto um navio afunda? E até onde a honra de um capitão vai a fim de que esse afunde junto a seu navio, lutando até ao fim em manter-se de pé? Recentemente notamos o padrão ético de nosso tempo, quando um capitão fugiu do Costa Concórdia, sem nenhuma espécie de arrependimento ou maior dúvida. Mas a imperturbabilidade nesse filme foi mostrada nas pessoas que estavam nos botes, bem como em casais e famílias que se mantiveram hora na proa, hora na polpa do navio, procurando refúgio naquele carma coletivo que traçava o seu destino.



A doutrina de Epicuro ensina a sabedoria. Não que negue os prazeres da vida, mas que os tenha com moderação. E valoriza mais uma amizade e o autoconhecimento, do que superficiais riquezas e famas. Em nosso tempo já vemos pelo contrário, além de certo luxo, presenciamos um total vazio das pessoas. Fosse hoje, ficariam apáticas e se matariam pelos botes, sem qualquer seleção de proteger as crianças ou pessoas mais velhas. Vemos que o navio social afunda, e que cada vez mais ficamos imperturbáveis com a violência, aceitando a cada dia mais a desgraça alheia, numa desumanidade construída pelos meios de comunicação de massa. Semelhante a Hindemburg, o famoso Zepelin que despencou do céu, o Titanic nos deu a lição histórica de que não se desafia a natureza ou Deus, e que o respeito para com todos é essencial a manutenção de alguma estabilidade material ou do espírito. Vemos em Epicuro a amizade muito valorizada também, essa tão lembrada na obra de Alain de Botton. Fato é que o filme mostra as coisas de um modo diferente, e que nos leva a uma obra menos sensacionalista do fato, mais realista e crível, apesar de que o navio não se parte no final, fato que foi descoberto depois a ocorrência. Mas o detalhe da chaminé quebrando, foi de arrepiar. Mesmo assim um grande filme e que deve ser visto por todo cinéfilo ou admirador da história.