sábado, 29 de junho de 2013

Rambo 4 e o arquétipo do masculino

Rambo 4 e o arquétipo do masculino

 
      O filme Rambo 4 é uma curiosidade: ele é dirigido pelo próprio Rambo, ou Sly (Sylvester Stallone). Assim o filme garante uma certa fidelidade com os anteriores, apesar de que mil vezes mais violento e realista, e mais de 20 anos após. Esses dias vi os três filmes anteriores, e fiquei impressionado com a trilha sonora, de como é emotivo o filme, levando o cinéfilo a sensação bélica e de honraria. Mas aqui no presente, a trama se desenrola no norte da Tailândia, na antiga Birmânia, ou em Mianmar, que é considerado o pior lugar do mundo, por ferir direitos humanos e por lá haver uma ditadura militar de certo modo criminosa. Assim, o filme começa mostrando as atrocidades, cenas reais do local. Também mostra o Rambo como espécie de adestrador de serpentes naja e ainda ferreiro e barqueiro. O barco é característico daquela região, usado no Rambo 2. O filme em muito parece uma continuação de Rambo 2, e não do 3, uma vez que não teria muito sentido fazer do Afeganistão um herói, como lá havia feito. No mais o filme tem ótimo som de explosões e tiros, e agradará aos fãs, apesar de que não é o melhor da série. Claro fica porém o arquétipo masculino, marcial, guerreiro, pelo ferreiro que é o John. Também por toda a falta de relacionamento, uma marca feminina de existência, e por não ter filhos. Assim chineses diriam que Rambo é quase 100% yang.
      A ideia para se fazer o filme inicialmente era de se desenrolar no México, mas por problemas de imigração ilegal e tudo mais não se decidiu fazer naquele país. Por outro lado, como o filme continuou o segundo, achei que finalmente o Rambo iria reencontrar o amor, tendo em vista que naquele ele arrumou a namorada tailandesa. Porém apesar da participação da missionária loira, a mesma era noiva, de modo que não rolou a saída do armário de Stallone. O filme foi feito na mesma época que Rocky Balboa, então ficou meio estranho, parecendo que foi feito com pressa. Pra começar as cenas excluídas não deveriam ser, haja vista filme parecer rápido demais, comparado aos demais. Legal foi que ele é quase ateu e disse que lá na Birmânia não se precisa de livros ou Bíblia, mas de armas para salvar aquela gente. Por certo acertou, porque os missionários viraram picadinho nas mãos dos militares. E lá foi Rambo metralhar os dito cujos, como um cangaceiro.

       O melhor Rambo foi o primeiro. Muito bom o personagem, porque ele é bem introvertido e desconfiado, característica de nosso tempo, onde não sabemos dos charlatões que nos tentam enganar. Assim ele apenas ajudou a loira missionária porque confiou nela, não por causa de sua religião ou evangelização. Por fim ela se vê salva e parece que leva a crer que largaria essa ilusão de querer mudar a mente de criminosos e psicopatas militares de países falidos. Ademais, o que precisa esse país é de intervenção internacional por ferir direitos humanos e manter guerra civil sem motivo. Mas o primeiro Rambo era a história de um vagabundo (e mesmo, foi preso por vadiagem lá...), que é humilhado ao voltar da guerra do Vietnã. E não adianta fazer filme, aquela guerra eles perderam. Mas demonstra naquele que tem inúmeros talentos, e talvez a qualidade de Marte, o deus da guerra. Na cabala se chamaria Geburá, o “Senhor dos Exércitos”. Mas fato é que o motivo da guerra pela própria guerra revela a natureza humana, do sistema reptiliano e dos instintos ainda vivos em pessoas que não evoluíram moralmente.
      Em Rambo 4 se tenta fazer um herói, talvez o povo Karen, que é espécie de nativo da região e não tem ainda independência, sendo massacrado, quase exterminado. Lá em Rambo 3 o herói era o afegão, que diziam ser o melhor guerreiro da história, por vencer Alexandre o Grande, Gengis Kan, on ingleses e todos que lá tentaram se infiltrar (acho que venceram os americanos também...). Isso tudo me lembra da Arte da Guerra de Tzu e daquela Arte da Guerra de Maquiavel, obras que dão uma noção de como pensar militarmente. Mas em Rambo 2 houve um sentimento de compaixão e uma parcela de yin, de amor pela tailandesa, de modo que vemos que o homem da guerra gosta também de Vênus, ou das mulheres. Assim o marido de Vênus é um ferreiro e a serpente do Gênese acaba unindo Adão e Eva. E Rambo é nesse filme 4, quase um encantador de serpentes.


Pesquisas com meninos pré-adolescentes, mostrou na TV Escola que seu comportamento agressivo é uma marca masculina. Assim o padrão é uma espécie de ser para a guerra e para a caça, o que vem já em sua genética. Vemos que isso ainda existe sutilmente em uma cultura onde existem esportes de luta, e onde o homem acaba ganhando salário maior que a mulher. Injustiças a parte, vemos que a própria mulher faz uma noção de homem que é inalterável, e se for de comportamento diverso acaba por não atrair ou por ser visto como de outro gênero. Fato é que Rambo e uma série de filmes agressivos mostra o arquétipo masculino, pois é próprio do desejo essa marca fálica, é mesmo a natureza fálica. Já Freud teria observado, e mesmo Jung, que isso está no arquétipo, numa espécie de tradição cultural e coletiva da humanidade. Eu mesmo em infância e adolescência era meio violento, e às vezes brigava com amigos. Fato é que isso tudo é uma marca de Vir, de virilidade comum. Acho que porém o exagero da exclusão do feminino ou yin acaba por parecer mais outra coisa, com o que fizeram os gregos antigo e os romanos, que por sinal era guerreiros. Fato é que Rambo 4 poderia ser melhor, mas mesmo assim foi uma boa produção.   

domingo, 9 de junho de 2013

Filme A Partida e o ser para o nada


Filme A Partida e o ser para o nada






O filósofo Jean Paul Sartre disse que o ser é destinado para o nada. De certo modo ficamos sempre assustados com a ideia que deixaremos um dia de existir. Esse impasse existencial nos faz muitas vezes se arrepender por não termos vivido ou aproveitado coisas da vida, mas ao mesmo tempo nos leva a uma dimensão espiritual, ou mística que faz superar o momento final. Vendo um filme maravilhoso de produção japonesa, A partida, vencedor de Óscar, percebi que talvez a própria transição ou morte possa já ser uma grande lição, além de se perder o ente querido, mas a morte que nos envolve, as células que se vão, os alimentos que ingerimos e assim por diante. A vida é uma dialética entre nascimento e morte, e sabemos que o fim será uma certeza. Mesmo por morar em frente a cemitério, e acompanhar todos os dias ou quase cerimônias fúnebres, percebo que isso nos leva a compreensão maior do momento, sem aquele “desespero humano”, a sombra de Kierkegaard e seu pai. Nessa produção japonesa também o tema da morte e da relação com o pai são centrais, me levando a esse momento existencialista.

Adoro filmes japoneses. Acho que a qualidade e o foco em detalhes impressiona, e mesmo a cosmovisão é diferente. A certeza com relação ao respeito a tradição é algo bem diferente do que aqui no ocidente e Europa, onde a tradição já se foi faz tempo. Vejo nos rituais funerais de lá uma sensibilidade muito singular, e essa passagem de dimensão ou mudança de corpo se faz de forma mais leve. No filme A Partida mostra por outro lado o tabu que se deve ser na profissão de agente funerário, uma vez que esse músico de violoncelo ao se ver desempregado, procura às cegas o emprego e acha esse serviço que ninguém quer. Ganha muito dinheiro e satisfaz a esposa, escondendo sua real atividade. Ele se transforma e apesar de antes nunca ter visto uma pessoa morta, acaba por ter um contato muito singular com as família e pessoas, uma dimensão super-humana de tratamento, o que antes não possuía. Mas amigos se afastaram e a esposa se separou, haja vista não ser “bem visto” alguém que toca em mortos lá nas terras nipônicas.

Fato é que me impressionou é a história moderna, do pai que se separa da esposa e nunca mais vê o filho. O filho se torna agente funerário e por fim conhece seu pai apenas no momento de sua morte, fazendo inclusive seu velório. Isso demonstra uma compreensão bem elevada do complexo de Édipo e nos leva a pensar em outro grande personagem da história, em filósofo Kierkegaard, fundador do existencialismo, escola da qual mais conhecemos Nietzsche. A existência é um desafio e vemos que o ser para a morte foi uma paradigma moderno, e mesmo nas artes e na música vemos esse tema ser mais relevante. Nas músicas dos anos 80, seja em Legião Urbana, ou mesmo em um Smiths, vemos o tema da morte e da fatalidade, mesmo o ar melancólico de algumas composições, uma forma de espelhar esse momento existencialista.

Vemos que o Ser é mesmo um encontro com Deus, e que quando estamos nesse “nada” é que podemos conhecer a plenitude da luz. O filme A partida não foi de modo algum espiritualista, mas mostrou vários funerais de diversas religiões, e de forma artística suavizou o momento que é tido por muitos como o máximo de tristeza ou indignação. O protagonista parece frio, mas o filme leva uma emotividade que está cada vez mais difícil percebermos em nosso momento pós-moderno, cheio de tecnologias e velocidade de informação por redes sociais. Fato é que a gravidez da esposa do agente funerário culminou na vida nova que nasce, em contraste com o perdão em relação ao seu pai e com a tradição da carta-pedra, que o mesmo continuou, uma vez que sabe partilhar dos genes do seu ancestral. Vemos justamente na existência par o nada da morte uma forma de valorizar o todo da vida, e aprender a ver o lado bom das coisas, mesmo que por momentos ruins. A partida venceu porque mostrou um aspecto sui generis, raro no cinema contemporâneo. E o Japão ressurge com antigos saberes, nos mostrando o oriente e a luz maior.